Conta a lenda
que São Corbiniano, Bispo e fundador de Frisinga, em viagem a Roma, sofreu o
ataque de um urso que acabou matando seu cavalo, no qual fazia a viagem. O
Santo Bispo, sujeitando a fera à sua autoridade, ordenou ao urso que,
pacificamente, prosseguisse com ele a viagem, fazendo as vezes do animal que
matara e que, carregando a bagagem do Prelado, o acompanhasse à Cidade Eterna.
Quando, enfim, chegou a Roma, o Bispo libertou o animal, que voltou para as
montanhas donde tinha saído. Essa cena, que é preservada na cultura bávara, foi
escolhida pelo então professor Ratzinger para fazer parte da heráldica do seu Brasão
Arquiepiscopal, mas o significado vai além de evidenciar suas raízes, podendo-se
usá-lo, também, para entender sua vocação e o lugar do seu serviço na Igreja.
O Cardeal
Ratzinger, ao escrever um livro de memórias, reconta a história do Santo Bispo
bávaro e, ao recontá-la, faz uma analogia com a sua própria ida para Roma. O texto
termina com esse belo e artístico trecho que ora transcrevo: “Enquanto isso, eu
levei a minha carga para Roma e ando com ela há muito tempo pelas ruas da
Cidade Eterna. Quando serei solto, não sei; o que sei é que para mim vale: ‘teu
jumento eu me tornei, e assim, exatamente assim, é que estou contigo’”.[1]
A lenda de São
Corbiniano, na verdade, constitui quase que uma parábola da vida do Papa Bento
XVI, especialmente dos quase oito anos de seu Pontificado. Com a triste e inesperada
notícia de sua renúncia, essa meditação torna-se ainda mais eloquente e
necessária. Eloquente porque parece ter chegado ao final da viagem e o momento
de “livrar-se” da carga imposta por Deus aos seus ombros fatigados; necessária,
pois pode ser uma luz que explique o motivo pelo qual ele tomou a decisão de
descer humildemente da Cátedra de Pedro. Todavia, é indiscutível que a lenda torna-se
mais que uma parábola; pode assemelhar-se a uma “profecia”, um anúncio prévio
que revela a espiritualidade do Papa.
O urso é o próprio Papa que, obedecendo ao
Bispo, ou seja, à Vontade de Deus, vai a Roma carregando o seu fardo e, lá,
terminado o percurso e findada a sua “utilidade”, é liberado, podendo assim
voltar para as montanhas donde havia sido retirado. Porventura, naquele urso
forçado a tornar-se o que não é próprio de sua espécie, não vemos o Papa? Sim, nele vemos o jovem
professor Ratzinger que, contrariamente à própria vontade, deixa o seu
“habitat” natural, em outras palavras, afasta-se do mundo acadêmico, para ser
consagrado Bispo. Quando teve que aceitar a nomeação para o Arcebispado de
Munique e Frisinga assim escreveu na sua carta de aceitação: “Às vezes é
preciso aceitar o que nunca se pensou para a própria vida”. Vemos ainda o Bispo
que aparta-se da sua amada Baviera e, silencioso
e obediente, toma lugar na Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé; ele é,
por assim dizer, arrastado para Roma e lá permanece, fielmente, até que Jesus lhe
peça outra coisa, outra saída. É outra vez conduzido aonde não pensava ir, para
ocupar o lugar vazio da Sé de Pedro; outra vez mais, não queria ir e, por amor
e obediência à voz do mestre de Nazaré, deixa-se “atar e conduzir aonde não
quer ir” (Jo 21,18), tornando-se assim um “humilde trabalhador na vinha do
Senhor”[2].
O que representa
para o Papa aquele urso conduzido como um animal de carga? Deixemos que o próprio Ratzinger
o defina: “Esse urso, carregando a bagagem do Santo, me lembra uma meditação de
Santo Agostinho sobre um Salmo. Nos versículos 22 e 23 do Salmo 73 (72), ele
viu uma imagem do peso e da esperança de sua vida”. Mais adiante, confessa: “O
que Agostinho aí escreve tornou-se, para mim, a definição de meu próprio
destino”. Cita Santo Agostinho: “Um animal de tração sou eu, diante de ti, para
ti, e é exatamente assim que estou contigo”[3].
Sim, Santo
Padre, vós chegastes a Roma carregando, nos ombros, o peso das ovelhas que vos
foram confiadas pelo Supremo Pastor de quem fostes constituído Vigário,
representante; vós não possuís a mentalidade do mundo que apenas vê como
sucesso as glórias, as honrarias, os devaneios e maldades feitos simplesmente
para manter-se no poder, manter-se visto, ouvido e influente; vós, contrariando
os vossos contemporâneos, uma vez cumprida a vossa missão e escutada aquelas
palavras consoladoras “servo bom e fiel” (Mt 25, 22), soubestes dizer ao mundo
que o homem passa, o homem deve passar para que as coisas eternas permaneçam.
Neste sentido, no antigo Rito de Coroação Papal havia um momento onde
queimava-se incenso e um Cardeal mostrava ao Papa a fumaça enquanto dizia: “Sic
transit gloria mundi”[4],
para que o novo Papa não se deixasse levar pela tentação de deixar entrar no
coração o gosto pela glória mundana. Vós, Santo Padre, sem vos iludirdes com as
glórias passageiras respondestes ao Senhor com as mesmas palavras que Ele havia
ensinado aos seus discípulos: “Sou um servo inútil, fiz apenas o que deveria
fazer” (Lc 17,10).
Na história de
São Corbiniano, o urso, após cumprida a sua missão, voltou para as montanhas.
Vós também decidistes voltar para a montanha! Sim, às montanhas que significam
o lugar propício para a oração. Depois de entregar as chaves de Pedro, subireis
a montanha da oração e do silêncio e vos juntareis aos inúmeros homens e
mulheres que fazem da oração o seu serviço à Igreja e à humanidade. Subireis
com eles as montanhas hodiernas nas quais precisamos homens santos rezando e
intercedendo de mãos erguidas fazendo possível a vitória contra o mal (Cf. Ex
17, 8-13). Vós mesmo fizestes essa meditação: “ Esta Palavra de Deus escuto de
modo particular ser dirigida a mim, neste momento da minha vida. O Senhor me
chama a ‘subir o monte’, a dedicar-me ainda mais a oração e à meditação. Mas
isso não significa abandonar a Igreja, antes, se Deus me pede isso é para que
eu possa continuar a servi-la com a mesma dedicação e o mesmo amor com que
busquei fazer até agora, mas de um modo mais adaptado a minha idade e à minha
força” (tradução nossa)[5].
Sim, Santo Padre, adaptado à vossa idade e força, mas, sobretudo, adaptado ao
vosso grau de santidade.
Com este ato corajoso, destes vida à antiga
oração composta pelo vosso antecessor, o Papa Clemente XI, que diz: “Quero o
que quiserdes, porque o quereis, como o quereis e enquanto o quereis”. Sim, querido
Papa, “enquanto o quereis”! É preciso fazer a Vontade de Deus e fazê-la até
quando Ele queira. Com esse gesto nos ensinastes a fazer a Vontade de Deus e a
não confundi-la com a nossa vontade.
Obrigado, Santo
Padre! Obrigado pelo constante “sim” que, uma vez pronunciado, foi ratificado
dia a dia; fostes fiel e o sereis até o fim. Obrigado por mostrardes que Deus é
amor e que só podemos ser felizes quando correspondemos livremente a esse amor!
Obrigado por nos ensinardes a ver, apesar da névoa, que “o sol da justiça que
nos veio visitar” (Lc 1,78) nos abriu a possibilidade da salvação e continua
presente e operante na Sua Santa Igreja! Obrigado por colaborardes com a
verdade quando o mundo não mais acreditava na sua existência! Obrigado por
serdes o Papa da fé e por nunca terdes – mesmo quando parecia ser mais fácil – diminuído
as exigências ou aumentado as expectativas, porque sois apenas o administrador,
falais em nome de Outro e porque é preciso estar atento à Vontade d’Ele.
Muito obrigado,
Santo Padre! A Igreja de Cristo vos ama!
[1] RATZINGER,
Joseph. Lembranças da Minha Vida:
autobiografia parcial (1927-1977). Trad. De Frederico Stein. 2. ed. São Paulo:
Paulinas, 2007. p. 140
[2]
Primeira alocução aos fiéis após a sua eleição ao Sólio Petrino, em 19 de abril
de 2005.
[3] RATZINGER,
Idem, p. 138.
[4] “Assim
passa a glória do mundo”
